30 de Janeiro de 2026

Selena

Moro no interior do Amazonas, onde o acesso a recursos de saúde especializados ainda é muito limitado. Fui fazer um pré-natal de rotina, no dia 21/11/2025, sem imaginar que aquele dia mudaria completamente a minha vida. Durante a consulta, foi identificado que os batimentos cardíacos da minha bebê estavam alterados. Diante da gravidade da situação, fui imediatamente encaminhada para o hospital.

Já no hospital, após a realização de um ultrassom, os médicos constataram hematomas na placenta, indicando que minha bebê corria riscos. A partir daquele momento, tudo aconteceu muito rápido. Pouco tempo depois, precisei passar por uma cesariana de urgência.

Minha filha, Selena, nasceu no dia 22/11/2025 às 00:21, prematura, com 33 semanas de gestação. Eu ainda tentava compreender tudo o que estava vivendo quando a luta pela vida da minha filha começou. Não tive a oportunidade de tê-la em meus braços, Selena foi diretamente para a incubadora.

Por falta de recursos no interior do Amazonas para o cuidado de um bebê prematuro, e com apenas 24 horas de operada, tive que me deslocar para a capital, Manaus. Entubaram minha bebê para ela poder viajar devido ao problema respiratório dela. Fiz essa viagem ainda em recuperação cirúrgica, sentindo dores, medo e insegurança, deixando minha casa e minha rede de apoio.

Nesse processo de me deslocar de uma cidade para outra, longe de casa, bastante debilitada, encontrei poucos profissionais sensíveis à minha dor. A maioria não compreendia o peso físico e emocional de uma mãe recém-operada, fragilizada e longe da sua bebê.

Mesmo recém-operada, eu andava constantemente pela maternidade apenas para conseguir ver minha filha. Meus pés inchavam de tanto caminhar. Não tive resguardo, não tive repouso, porque meu único pensamento era estar perto da Selena.

Foram dias extremamente cansativos, física e emocionalmente, mas eu me mantive de pé porque Deus me sustentou em cada passo, e também graças ao apoio essencial da minha tia Rejane, que foi meu alicerce em todos os momentos difíceis.

Nesse período, conheci outras mães de bebês prematuros. Vivíamos uma mistura intensa de sentimentos. Quando algum bebê recebia alta e saía com sua mãe, era motivo de alegria e esperança para todas nós. Ao mesmo tempo, a dor também se fazia presente, pois nem todas tinham a mesma sorte. Alguns bebês, com poucas semanas de vida, infelizmente não resistiam. Conviver diariamente com a alegria de umas e o luto de outras abalava profundamente o nosso emocional.

Outro grande desafio foi o processo do leite. Para mim, foi muito difícil. Eu não conseguia produzir leite como desejava, o que me trouxe frustração, tristeza e um sentimento de impotência, mesmo tentando todos os dias.

A saudade de casa era constante. As noites eram longas, silenciosas e cheias de lágrimas. Eu chorava todas as noites, pedindo forças para continuar.

Até que chegou um dos momentos mais marcantes dessa caminhada: o período em que pude ficar com minha filha no método canguru. Tê-la mais perto, sentir seu calor e ouvir sua respiração renovou minha fé e minhas forças.

Depois de 16 dias de internação, sendo quase uma semana na UTI, chegou o dia que eu tanto esperei. Minha Selena venceu. Ela venceu a prematuridade. Ela venceu os riscos. Ela venceu os dias difíceis. E eu venci junto com ela.

Compartilho a minha história não apenas como um relato de superação, mas como um pedido de conscientização. Muitas mães do interior do Amazonas enfrentam riscos reais por falta de acesso a exames, equipamentos, profissionais especializados e unidades preparadas para atender casos de alta complexidade, como a prematuridade.

Nenhuma mãe deveria precisar viajar recém-operada, sem resguardo e sem repouso, para garantir o direito básico à vida do seu filho. Investir em saúde no interior é investir em vidas, é evitar deslocamentos dolorosos, é oferecer dignidade, segurança e esperança para mães e bebês que lutam desde o primeiro dia. Que a minha história e a vitória da Selena sirvam para dar voz a tantas outras mães que ainda vivem essa realidade em silêncio.

Selena sirvam para dar voz a tantas outras mães que ainda vivem essa realidade em silêncio.

Responsabilidade do conteúdo por conta do autor, não reflete o posicionamento da ONG. Não nos responsabilizamos pela veracidade dos fatos.

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