11 de Maio de 2026

Arthur Fávero

Era 9 de novembro de 2022, uma quarta-feira, quando o coração de Flávia bateu mais forte — não só de amor, mas também de uma ansiedade que ela carregava há meses. Com 41 anos, ela já sabia que essa gestação seria diferente: tinha hipertensão crônica, hipotireoidismo, havia tido COVID-19 antes da gravidez, e os exames mostravam algo que mexia com tudo: agenesia do corpo caloso, uma alteração na formação do cérebro do bebê, além de retardo de crescimento intrauterino. Os médicos avisaram: “Ele vai chegar antes da hora, e vai precisar de toda a força do mundo”. Às 20h32, na Sala de Parto do Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti (Caism), o pequeno Arthur Fávero nasceu. Com apenas 29 semanas de gestação, chegou a pesar 900 gramas, media 34 cm — um bebê minúsculo, frágil, mas que já veio mostrando sua primeira marca: o primeiro índice de Apgar foi 8, o quinto chegou a 9. Ele nasceu vigoroso, respirou sozinho nos primeiros minutos… mas logo o corpo dele deu sinal de que o caminho seria difícil. Dois minutos após o nascimento, a respiração ficou irregular, e os médicos rapidamente o ajudaram com ventilação e suporte de CPAP, levando-o direto para a UTI Neonatal. Ali começou a sua verdadeira batalha. Os primeiros dias foram de puro susto. Arthur era pré-termo, pequeno para a idade gestacional, com peso muito baixo. Tinha colpocefalia — formato diferente da cabeça — e a alteração cerebral já esperada. Logo apareceram os primeiros problemas: hemorragia bilateral, sangramento nos dois lados do cérebro; hemorragia peri-intraventricular grau 2 no lado direito e grau 1 no esquerdo.

Depois, veio a meningite bacteriana, um inimigo perigoso que inflamou as membranas do cérebro, causou convulsões secundárias, deixou-o com muita hiperexcitabilidade, braçocárdia (coração batendo devagar) e até choque séptico — quando a infecção tomou conta do corpo e quase parou tudo. Ele teve síndrome do desconforto respiratório, os pulmões ainda imaturos não conseguiam encher de ar direito, houve atelectasia (parte do pulmão que não abriu), broncodisplasia pulmonar — os pulmões ficaram marcados pela luta. Depois de tirar o tubo que o ajudava a respirar, teve laringite, paradas respiratórias repentinas (apneia primária), febre, acidose respiratória, hipotermia, hipoglicemia, hiponatremia… parecia que a cada vitória, aparecia um novo obstáculo. Teve sepse bacteriana, infecção sem que os médicos achassem logo o germe, que causou queda de plaquetas, anemia, neutropenia — o sistema de defesa dele ficou fraco. Tinha refluxo que queimava o esôfago, lesão na narina, icterícia que deixou a pele amarela, distúrbios de sal e açúcar no sangue, síndrome hipertônica, onde os músculos ficavam tensos, difíceis de relaxar. Mas Arthur não parou.

Dia após dia, os médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, todos faziam a sua parte: remédios, soros, antibióticos, suporte respiratório, cuidados mínimos para não cansá-lo. E Flávia, todos os dias, ficava ao lado da incubadora, falava com ele, tocava a mãozinha minúscula, contava histórias, dizia que ele era forte, que já tinha vencido o primeiro passo e que iria vencer todos os outros. Os exames mostravam a luta: ultrassons cerebrais que acompanharam a evolução das hemorragias, eletroencefalogramas que mostravam atividade compatível com o seu tamanho, exames de sangue que subiam e desciam, culturas que às vezes davam positivo, às vezes negativo. Ele teve bactérias como Serratia marcescens no corpo, mas com tratamento, tudo foi controlado. Pouco a pouco, os sinais foram mudando. - As paradas respiratórias ficaram menos frequentes, até pararem de vez. - As infecções foram curadas, o choque passou, a meningite ficou para trás. - Os níveis de sal, açúcar, cálcio, tudo se estabilizou. - O refluxo melhorou, a anemia foi tratada, as plaquetas voltaram ao normal. - Os movimentos ficaram mais tranquilos, a hiperexcitabilidade diminuiu, a tensão muscular foi controlada com estimulação e cuidados. O peso foi subindo, devagar, mas subindo. Os dias se transformaram em semanas, as semanas em meses. De novembro de 2022 até fevereiro de 2023 — 85 dias internado — Arthur foi crescendo, aprendendo a respirar sozinho, a comer, a reagir aos sons, a reconhecer a voz da mãe.

No dia 2 de fevereiro de 2023, o relatório médico teve a palavra mais esperada: ALTA. Arthur saiu do hospital com todas as marcas da sua luta, mas com o coração forte, o cérebro que, mesmo com as diferenças, funcionava, com os pulmões que agora sabiam se encher de ar, com o corpo que, pequeno, já tinha tamanho para o mundo. Hoje, ele é a prova de que a vida resiste, de que os bebês pré-termo são pequenos gigantes, de que o amor e a ciência, juntos, fazem milagres. Arthur carrega na história do seu nascimento cada diagnóstico, cada dia de luta, cada cuidado recebido — e transformou tudo isso em força. Ele não só sobreviveu: ele venceu. E o melhor? Ele continua crescendo, sorrindo, vivendo, mostrando que nenhum obstáculo é maior do que a vontade de viver. 

Responsabilidade do conteúdo por conta do autor, não reflete o posicionamento da ONG. Não nos responsabilizamos pela veracidade dos fatos.

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