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Uma crônica do isolamento

12/07/2020

Para Débora Kutne

Tempos difíceis.
O personagem desse relato é um cidadão brasileiro vivendo nos dias atuais.
Já se vão 3 meses obedecendo regras de isolamento que lhe foram impostas sem opção de escolha.
Distante da família, passa os dias guardado em si mesmo.
Isolamento.
Será que existe alguma técnica que torne possível dosar a falta que faz um abraço, um colo, um carinho?
A experiência de estar distante dos seus e de quem você ama, vivida e repetida dia após dia, vai provocando o surgimento de sinais muito bem conhecidos de todos nós:
O coração, de vez em quando, acelera.
Os olhos, ávidos, se avivam.
A respiração, vez por outra vai se tornando irregular, ansiosa, disritimada.
Solidão e insegurança parecem tomar conta do pensamento.
Submerso nessa trama castigante de falta de convivência, nosso personagem, aos poucos e de forma paradoxal, vai perdendo o interesse pelo dia que vive lá fora, inalcançável.
E o que deveria alimentar expectativas saudáveis, vai mergulhando o coração em seu fundo mais denso.
Após algum tempo, esse cenário sugere um mergulho na apatia.
Depressão.
Depressão alimentada por um medo do que não se pode prever e pela falta de interesse pelo que está longe e que lhe é desconhecido.
3 meses de isolamento e solidão.
O calor das gentes, e isso é de conhecimento comum, aquece melhor a alma que o calor das coisas.
Mas quando o calor das gentes não se aproxima, o coração palpita inquieto.
3 meses.
As mãos depois desse tempo distante parecem buscar alcançar algo, para tocar, para ter perto de si.
Mas esse algo não se consegue alcançar.
Os olhos da mesma forma parecem buscar enxergar alguma cena que ele mesmo não sabe bem o que é.
Mas essa cena responde incessantemente ser inatingível, e não se pode enxergar.
Seus ouvidos atentos vão tentando reconhecer um som conhecido, volume, timbre.
Mas esse som insiste em não se apresentar para degustação da sua audição.
Então desde o momento em que não se toca, não se vê e não se escuta o esperado e desejado, a vivacidade da alma vai se apagando aos poucos.
3 meses emprestam-lhe esse aspecto semelhante à exaustão.
A medida que esses dias se sucedem vai se tornando cada vez mais clara em nosso personagem a perda de seu interesse pelo pelo mundo em sua volta, desinteresse causado pela distancia, pela ausência, pelo não ser...
Quer sorrir. Não vai sorrir.
Quer tocar. Não vai tocar.
Quer ouvir. Não vai ouvir.
Quer os seus em sua volta. Mas os seus não estão por perto.
Então, essa impotência é como caldo de cultura rico para crescimento dos primeiros sinais de um stress que aos poucos vai corroendo a alma que, sem saída, se entrega.
Stress que vai roubando-lhe a vontade de se alimentar e isso vai lhe custando, aos poucos, perda peso e esgotamento das suas reservas de nutrientes, comprometendo as suas defesas de um modo geral.
Mas o mais grave e digno de ser citado é que quase ninguém nesses 3 meses percebeu a dor silenciosa que habitava fundo no coração do nosso personagem.
Quase ninguém notou sua solidão.
A dor da gente não sai no jornal, como dizia a canção.
Por isso talvez ninguém tenha tentado se aproximar de alguma forma para tentar fazê-lo reagir e não se entregar.
O principal ferido desse enredo cinzento de isolamento sem tempo para acabar é o futuro, que se vê, a partir daí, comprometido e determinado a carregar na sua bagagem o fardo desses dias sem cor e sem colo e sem abraço.
Tempos difíceis de isolamento.
Tempos que para o nosso personagem se transformaram no único ambiente possivel de seguir vivendo.
Tempos que da mesma forma punem com afastamento os seus afetos e aqueles a quem ele deseja abraçar e dividir os espaços que a vida nos oferece.
Os tempos de afastamento daqueles a quem amamos são os mais longos da história das nossas vidas, e suas marcas se guardam para sempre.
Isolamento.
Mas...
Um momento.
Não estamos falando aqui de pandemia.
Isolamento social.
Distanciamento social.
Lockdown.
Nada disso.
Nossa história, embora possa não ter ficado claro à primeira vista, é um esboço do dia a dia de um bebê prematuro em uma instituição hospitalar cuja rotina não valoriza o contato, o colo, o toque, o envolvimento do bebê com a sua família.
O que a pandemia do coronavirus conseguiu fazer, e isso é mérito dela, é impor, sem pedir licença, a muitos de nós, sensações semelhantes àquelas vividas por estes bebês prematuros em seus dias de UTI sempre que o tratamento respeitoso lhes é subtraído.
Perceber no nosso dia a dia o que esses prematurinhos vivem diariamente pode ser o estimulo que necessitávamos para compreender suas vidas para além dos parâmetros clínicos e fisiológicos e iniciarmos um longo e irreversível mergulho na alma humana, aprendendo a protege-la de nossas negligencias e colaborando com a adoção de praticas menos pesadas e mais humanas em nossas UTIs Neonatais.
Porque a pandemia passa, mas a forma como nós nos comportamos pode mudar para sempre a história da vida daqueles que contam com nosso cuidado.

por Luis Tavares, médico pediatra da UTI Neonatal Nicola Albano, em Campos dos Goytacazes (RJ)

(Imagem: Freepik/@chevanon)



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