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Postado por: Prematuridade.com | 16.01.2013 Prematuridade.com | Notícias - Brasil

Letícia Sabatella e sua Clara, 27 semanas

Letícia, Dra. Mariza e Clara (fonte: Rev Viver Brasil)

O nascimento de Clara, em 1993,  quando os pais, os atores Letícia Sabatella e Ângelo Antônio, visitavam Belo Horizonte, chamou a atenção de todo país.

Clara nasceu com apenas 27 semanas de gestação e permaneceu em recuperação na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Mater Dei durante 3 meses.

O longo período de internação da filha na cidade fez com que Letícia, que vive com Clara no Rio de Janeiro, criasse laços de amizade com os médicos, entre eles o casal de ginecologistas e obstetras Mariza Chagas Sales e Walter Tavares Sales.

Ainda hoje, Letícia faz questão de ir a Belo Horizonte consultar com a médica. E é Mariza, quem fez o parto da pequena, também a ginecologista de Clara, hoje uma adolescente.

Abaixo, um pouco da história de Clara, nas palavras da própria Letícia (trecho do livro “Maternidade: Que delícia! Que sufoco!”, Editora Objetiva):

Foto: Fabio Martins / Ag News

“Era a primeira gravidez e eu tinha 21 anos.

Lembro de uma sensação de não acreditar muito na gravidez. Eu e o Ângelo estávamos em São Paulo fazendo uma peça. Estava desconfiando e fomos ao médico. Já me sentia diferente. O médico olhou o ultra-som e eu me lembro das palavras dele: “Nossa, está muito bem plantado” . Foi a sensação mesmo de um plantio, de uma semente. Estávamos numa alegria solta. Às vezes começávamos a rir de felicidade. Nossa! Que coisa mágica, que coisa especial estar grávida. Era bem ligada ao milagre da vida. De alguma forma você está ajudando a fazer uma pessoa.

Estava em São Paulo e senti muita vontade de ir para um lugar mais calmo junto à natureza, mas não podia naquele momento. Tinha enjôos, quando viajava de ônibus. Estava mais sensível. Queria ficar mais quieta comigo. Antes mesmo de ficar grávida já estava sentindo isso, uma vontade de ficar reclusa. Na peça que estava fazendo, meu personagem era muito ligado à maternidade. Quando eu fiquei grávida, parecia a continuidade de um processo interior que já estava vivendo. Apesar de não ter sido planejada, não foi uma coisa esquisita, fora do contexto. Parece que planejei de maneira inconsciente. Fui para Curvelo para passar as festas de fim de ano, Natal e Revéillon. Fui para lá com a família do Ângelo. Passamos um Natal de coração mesmo. Foi muito bom ter ido para lá.

Comecei a sentir contrações quando estava na beira do riacho, conversando com a mãe do Ângelo. Uma conversa bem feminina. A gente estava dançando e cantando. Comecei a sentir umas cólicas e comentei com a minha cunhada Soraia. Ela começou a contar as cólicas e disse que eu estava com contrações. Estávamos num lugar que não tinha telefone e nem carro. Alguém foi a cavalo à cidade para pedir que uma pessoa telefonasse para que alguém fosse até lá de carro. Todo mundo ficou apreensivo. Fui no carro com o Ângelo e com a mãe do Ângelo para o hospital da cidade. Era, dia 31 de dezembro, Revéillon.

Foi uma sensação muito forte, porque Curvelo é uma vila do interior mineiro, um lugar bastante árido e plano, não é como o Sul de Minas, não tem montanhas. A sensação que se tem ao olhar o céu é que as estrelas estão muito próximas. Era um céu bastante carregado de estrelas. Estava sentada no carro e o que vi naquela noite foi muito forte. Uma estrela muito próxima e muito grande. O Ângelo também viu essa estrela. Eu disse: parecem luzes de algum lugar, não tinha nada ali, parecia um sinal forte… Eu fiquei olhando para ela, me guiando por ela e parecia que o carro ia na direção da estrela. Quando cheguei ao hospital, o médico foi super-atencioso. Foi uma sorte ter contrações antes do tempo e ter uma pessoa boa para te receber. Ele me examinou e disse que ia nascer, eu disse: “Não pode”.

Clara nasceu com 27 semanas.

As enfermeiras são meio parteiras e eu falei: o que eu faço? Me deram um remédio para ajudar nas contrações. Me prepararam para um parto e me disseram: “Aqui em Curvelo não há condições. Não estamos preparados para receber um bebê prematuro”. Ligaram para Belo Horizonte, para uma médica, que é médica da família do Ângelo. Ela arrumou um hospital em Belo Horizonte, falou com a equipe de pré-natal no hospital e fui de jatinho para lá. Nessa hora tive a sorte de poder lançar mão desse recurso. Só que o jatinho só poderia chegar no outro dia, de manhã cedo. Era pouco antes da meia-noite e o nascimento estava previsto para as duas horas da manhã. Fiquei aquela noite ali. À 11 horas da manhã viajei para Belo Horizonte. O jatinho foi em 11 minutos. O que mais demorou foi a ida do aeroporto para o hospital, porque a ambulância tinha de ir a cinco por hora. No hospital estava tudo preparado para nascer o neném, mas fiquei até o dia 4.

Descobriram que estava com uma infecção, me deram antibióticos, em um esforço de me curar. Até uma hora em que não dava mais, em que rompeu a bolsa e Clara nasceu. A médica tinha um astral bem positivo, uma pessoa que transmite uma energia muito boa. Quando a Clara nasceu, ela disse: “Nasceu uma menina”. Lembro de que, quando ela nasceu a médica não chorou, mas quando chorei, ela chorou também. Quando o Ângelo veio falar comigo eu disse: “Vai até ela, porque estou mais lá do que aqui, agora”. Fiquei muito quieta e o Ângelo foi acompanhá-la até a incubadora. Ela teve de ser entubada. O médico da Clara chegou no quarto do hospital e alertou a gente sobre a dificuldade, as necessidades e os riscos imensos de um bebê prematuro. Foi uma prática maravilhosa. Ele foi muito claro sobre o que estava acontecendo. Ele não tinha aquilo de apaziguar nada. Achei muito melhor ele ser extremamente claro e pintar um quadro da cor que ele era.

De alguma maneira, aquilo que ele fazia provocava na gente uma reação de luz e a gente trabalhava para encontrar essa luz, que naquele momento não existia. A gente buscava rezar e compreender aquela situação. De alguma maneira, ele teve um papel muito importante. Em vez da gente se abater com as notícias, a gente reagia e quanto mais o quadro era de dificuldade, mais forte a gente se propunha a ficar. Era uma ação de resistência e isso foi super-positivo. A gente se recuperou muito mais rápido. Nesse dia em que ele falou as coisas claramente eu peguei na mão dele e falei: “Nós somos muito fortes”.

Hoje ele é um amigo, é meu irmão, gosto muito dele. É uma pessoa extremamente clara. Não é um médico que acalenta. É uma pessoa bem pragmática. Faz tudo para você reagir. Ele estimula demais a sua presença junto à criança. É muito amoroso. Aliás todos os médicos, as enfermeiras deste hospital são assim. Tem até uma filosofia dentro do hospital, de fazer questão que os pais fiquem junto da criança.

Como a Clara estava em processo de manter a vida, a gente saía para jantar fora. Eu, Ângelo e o médico. Se a gente sentia alguma coisa, saía do restaurante e ia para o hospital. Sentíamos que a presença da gente iria ajudar em alguma coisa. De alguma forma foi uma parceria muito legal com todos os médicos e enfermeiras que cuidaram da Clara. A presença da gente era tal que o médico dizia: “Nossa, é tanto o amor que vocês sentem que o transmitem para toda a equipe”. Foi uma relação de muita amorosidade. Ela ficou três meses no hospital.

Você fica muito sensível no pós-parto. Foi mais doloroso no meu caso. Lembro de que num primeiro momento achei que não era o que queria e que ia ser ruim. Era a imprensa querendo saber, porque a notícia se espalhou. Lembro que dois dias depois que ela nasceu havia uma equipe de jornalistas no salão do hospital. Tive que ir lá fazer uma entrevista coletiva. Fiz a entrevista chorando e quando li as coisas que falei achei coisas estranhas… pensava, nossa, eu falei isso? Não conseguia nem falar na entrevista. Falava coisas que sentia. Que Clara já era uma presença de muita luz, de muita força e me mostrava isso o tempo todo.

Houve uma pessoa que me ensinou a tirar o leite e explicava a importância de estimular o leite. É uma pessoa que eles têm para isso no hospital. Uma fisioterapeuta preparava a Clara para mamar. Um serviço muito bem feito. Amamentar é uma coisa muito boa. A sensação da criança pegando no peito e mamando é muito forte, muito legal. Você prepara seu corpo para produzir alimento. Passa a ser uma fabriquinha de alimento. Você começa a comer coisas que precisa. Não se importa de engordar, toma líquidos… É um bom período para pensar a alimentação. A gravidez inteira é assim. A alimentação se torna uma religião.

A maternidade é uma construção de um amor. É um momento para aprender. Não é um momento estanque, em que você já sabe se tem amor ou se não tem amor. O filho esclarece para a gente essa precariedade que há dentro da gente. Acho que a maternidade ajuda a construir melhor o amor.”

Foto: Revista Quem

Confira abaixo um trecho da entrevista à Revista Quem (Editora Globo), onde Letícia Sabatella fala de Clara, hoje com 19 anos.

Você foi mãe aos 22 anos e teve um parto prematuro, numa época em que não era comum bebês sobreviverem com apenas cinco meses. Bateu muito medo?
– Tive uma sorte danada. Ela estava frágil, conseguiu se fortalecer. Percebo a diferença de atendimento, tive a sorte de ter um médico que me recebeu e me segurou. O tempo inteiro me vinha isso à mente, de como seria num serviço público, porque é caro ficar na UTI. É um investimento. E ela ficou três meses. Fiquei lá o tempo inteiro.

Ela ficou com alguma sequela por ter nascido com apenas cinco meses?
– Nenhuma. Nem problema de vista, nem bronquite. É superforte, super-resistente. Uma coisa que ela tem é resistência à dor. E essa resistência é um mecanismo de defesa. Tenho que ficar de olho, porque ela demora a tratar dor de ouvido, por exemplo. Ela tem uma abstração da dor.

Nós, do Prematuridade.com, admiramos muito os principais “papéis” de Letícia na vida real: mãe, atriz e cidadã. Desejamos que Clara continue trazendo luz à vida dela, sempre com muita saúde!

 

Fontes: Revista Viver BrasilBolsa de MulherRevista Quem

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