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Um colo vazio, mas um coração cheio de amor

24/07/2017 Um colo vazio, mas um coração cheio de amor.

Em meio à dor, elas descobriram o amor verdadeiro. Mães que encararam a perda de bebês recém-nascidos ou ainda dentro do útero, guardam o afeto, a saudade e a necessidade de expressar o seu luto. "Precisamos falar do nosso filho que se foi", diz Viviane Isabel Kretzmann da Silveira, 24 anos. "Precisamos que as pessoas ouçam de verdade, que possa realmente haver um diálogo sobre isso. Às vezes, as pessoas agem como se nada tivesse acontecido."

No fim do ano passado, Viviane e o marido Davi da Silveira viveram dias intensos. Por conta de uma incompetência cervical - quando o colo do útero é incapaz de segurar o bebê até o fim da gestação -, a estudante de Enfermagem entrou em trabalho de parto 15 semanas antes do previsto. Era 18 de novembro, e Henrique estava previsto para nascer em 8 de março.

Seis dias depois do início das contrações, Viviane deu à luz Henrique: 805 gramas, 36 centímetros e o maior amor que pudera sentir, até então. "Eu estava na maternidade e não acreditava que isso estava acontecendo. Tive uma gestação muito saudável, fazia todos os exames, trabalhava e estudava", conta.

Durante 18 dias, Henrique viveu na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal do Hospital Santa Cruz. "Sempre digo que lá é um lugar de amor. Tenho muita gratidão pelos profissionais. Foi lá que vivi os melhores dias da minha vida", lembra Viviane. Rodeados de profissionais empenhados em garantir a saúde do pequeno, a mãe e o pai de Henrique passavam o maior tempo possível ao lado da incubadora.

Era madrugada do dia 12 de dezembro de 2016, uma segunda-feira, quando o telefone tocou. "Disseram que ele tinha piorado e a médica queria falar com a gente. Mas eu já sabia o que era. Mãe sente tudo", relembra. Foi já sem vida, que Henrique recebeu o colo da mãe pela segunda e última vez. "São vários momentos que marcam, e esse, de ouvir que o meu filho não tinha mais vida, foi um dos piores. Ninguém esperava, porque toda a equipe do hospital apostava muito nele. Era um bebê grande para a idade dele."

Recomeço

O retorno para casa foi complicado e postergado por um mês - período que o casal permaneceu na casa dos pais de Davi. "Não é fácil chegar em casa sem o filho nos braços, guardar as roupas que estariam sendo usadas, passar a data em que ele iria nascer."

Para Viviane, além da dor da morte do filho, um dos maiores desafios é a dificuldade de poder falar sobre o assunto. "Consigo lidar de forma melhor com isso, porque tenho o apoio da família e tive muitos colegas de trabalho que me escutaram e viveram tudo isso comigo", destaca.

Enquanto se dedica integralmente aos últimos semestres da graduação em Enfermagem, Viviane sonha com uma nova gestação depois da formatura. "Apesar da perda, o Henrique só veio para me trazer amor. Ele existiu. Ninguém vai apagar isso. Tenho medo de passar por tudo de novo, mas a vontade de nos tornarmos pais de novo é muito maior. Com o Henrique, descobri o que é amor de verdade."

Quando chegou o dia 7 de maio de 2017, data prevista para o nascimento de Sofia, já fazia quase quatro meses que a mãe, Vanusa Juliana Kolberg, 21 anos, convivia com um vazio no útero e outro no coração.

Ela já estava com cerca de seis meses de gestação (24 semanas), quando, em janeiro, uma ecografia identificou uma cardiopatia na filha. "Eu fazia todo o pré-natal, todos os exames estavam bem, não falhava uma consulta. Quando o médico viu na ecografia que ela tinha um problema no coração foi um baque."

Assustada com o diagnóstico, Vanusa não imagina a sequência de dor que encararia nos próximos dias. Após a ecografia, na sexta-feira, ela começou a se sentir mal, no sábado. "Não estava sentindo ela mexer. Fui para o hospital, mas me examinaram e ela tinha batimentos", conta. Na segunda-feira, levou o resultado da ecografia em uma consulta médica. Ao examiná-la, o médico constatou que o coração do bebê já estava parado. "Ela estava morta."

Após entrar no hospital, por volta das 10h do dia 16 de janeiro, Vanusa iniciou o processo de parto normal induzido, o qual só terminou por volta das 20h do dia seguinte. Viveu tudo o que uma mãe vive para dar à luz o filho - da dilatação do colo do útero às contrações induzidas. Apesar da dor, não ouviu o choro do bebê que recompensa o esforço materno. "Quando terminou o parto, passou a dor física. Mas a dor física não se compara à dor que eu estava sentindo por dentro."

Fé, apoio familiar e diálogo

Vanusa e o marido escolheram não ver Sofia. "Preferi lembrar dela como nas ecografias, como ela pulava na minha barriga, fazia folia." Para ela, encarar o momento de tanta dor só foi possível graças ao apoio da família e à fé. "Pedi para Deus me dar muita força. Rezo para a Sofia todos os dias, e pelas outras grávidas, para que não passem por isso. Quem dera que eu tivesse sido a primeira e a última a passar por isso."

Com o incentivo da psicóloga Camile Luiza da Rosa, Vanusa criou o grupo Estrelinhas no Céu, no Facebook, com o objetivo de trocar experiências com mães que passaram pelas mesmas situações, para conseguir encarar julgamentos, comentários e até mesmo o silêncio de muitas pessoas. "Muita gente fala: 'Vocês vão ter outros'. Queremos ter outros, mas nenhum vai substituir a Sofia. Posso ter outro filho, mas sempre vai ter esse vazio. A gente sonhou essa criança. Ela fez parte das nossas vidas. Ela existiu."

Apesar do silêncio que as cerca, histórias como a de Viviane e Vanusa são comuns. Para a psicóloga Camile Luiza da Rosa, é importante oferecer espaços para que essas mães sejam ouvidas. A profissional, que atua junto à unidade de saúde Materno Infantil (posto Central), planeja iniciar um grupo de apoio a mães que passaram por perdas gestacionais ou neonatais. "O que torna o processo de luto muito difícil para as mães que perderam bebês é justamente não falar. Elas querem que se fale sobre isso, não querem esquecer seus filhos", observa.

Segundo a profissional, em geral, no início, é mais fácil encarar a perda de algum familiar porque se tem todo um apoio. "As pessoas visitam, rezam missas. Passados alguns meses, aquilo não faz mais sentido para os outros, mas para quem está enlutado é difícil, porque ninguém mais visita ou pergunta sobre isso."

No caso de abortos ou falecimento de bebês, o processo é ainda mais complexo porque, nem sempre, as pessoas reconhecem que houve uma perda. "Essa criança não foi vista pela sociedade, então, para a sociedade, ela não existiu. Mas para a mãe ela existe, porque ela estava gestando, sentia os movimentos, tinha feitos seus planos. Ela já tinha inserido essa criança na vida dela", analisa Camile.

Se nos casos de morte prematura, a vivência intensa de hospital marca os pais, em casos de perdas gestacionais, a inexistência do contato com o bebê pode tornar o processo de luto ainda mais difícil. "Um dos rituais importantes em casos de aborto é que a mãe veja essa criança, que ela toque, pegue no colo para depois aquilo não ficar como uma fantasia. Isso ajuda na elaboração do que aconteceu", explica Camile.

Licença maternidade

Mães cujos filhos falecem logo após o nascimento ou que têm partos prematuros, a partir da 23ª semana de gestação (6º mês), têm direito à licença maternidade, independentemente se o bebê sobreviver. O afastamento remunerado, com o valor total, por 120 dias, está estabelecido na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

A CLT também diferencia aborto de parto prematuro, de acordo com a época em que ocorreu o nascimento, com ou sem vida. De acordo com a legislação, caracteriza-se como parto se ocorre a partir do 6º mês e aborto se ocorre antes desse período. Em casos de aborto não criminoso, é garantida licença remunerada de duas semanas à trabalhadora.

Grupo de luto

Na edição do fim de semana passado, Folha do Mate divulgou reportagem sobre o luto e o grupo de apoio a pessoas que perderam familiares, oferecido no Centro de Atendimento Psicossocial (Caps II). Confira aqui a matéria.

Fonte: Folha do Mate (notícia original publicada em 09/07/17)
(Foto: Divulgação / Folha do Mate)



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