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O bravo guerreirinho João Miguel

20/03/2017 joaomiguelcomlogo01

"Como muitos casais, chega uma hora no casamento que decidimos ser pais. Uma escolha muito difícil para aqueles que sonham com um filho e sabem da missão a enfrentar para educá-los. Conosco não foi diferente, decidimos que havia chegado a hora de nos entregar a um amor, que tampouco conhecíamos, só escutávamos falar desse amor como o maior amor do mundo. Dia 4 de dezembro de 2015, descobrimos que estávamos esperando o nosso primeiro filho. Foi um dia de muita alegria e emoção para nós que esperávamos viver esse momento. Da minha barriga, na data provável de 04 de agosto de 2016, nasceria João Miguel Sabino Gurgel, mas, por problemas gestacionais, ele teve que vir mais cedo.

A hora do parto é esperado por muitas mães com muito medo da cirurgia, mas não sei o que aconteceu comigo. Aliás, sei, Deus já havia preparado tudo, me manteve forte e calma. Às 16h23min do dia 21 de maio de 2016 escutei seu primeiro chorinho. Chorei de emoção pelo o seu nascimento, mas, principalmente, por ele ter chorado, não esperava por isso. Naquele momento, nascia um prematuro, um guerreiro. O guerreirinho João Miguel nasceu de 29 semanas e começou sua luta pela vida pesando 830 gramas e medindo 33cm, considerado prematuro extremo. Um bebê sem muitas chances de vida devido ter nascido já em sofrimento.

Não tive o prazer de ficar perto do meu bebê, como toda mãe sonha na hora do parto. Me mostraram bem rápido e saíram correndo para entubar. Pareciam que tinham roubado o que era meu. Saindo da sala de cirurgia mãe e filho se apartam, cada um para uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) diferente. Fomos apresentados um dia depois do parto na UTI Neonatal, o lugar que agora ele iria se desenvolver. Amadurecer os pulmões, ganhar peso, tudo que agora o meu ventre não podia mais fazer. Nosso reencontro foi na UTI Neo. Lugar que agora seria sua casinha por algum tempo que não sabíamos quantos dias ou meses. A partir daquele dia, nossa vida, nossa rotina, tudo mudou, UTI-casa-casa-UTI. Iríamos viver em uma montanha-russa, entre subidas e descidas de sua evolução. Montanha-russa que toda mãe e pai de UTI dão uma voltinha.

A primeira vez que vimos nosso João dentro da incubadora, entubado, foi um misto de emoções. Ver nosso filho pela primeira vez foi emocionante, mas, por outro lado, nunca tinha visto um ser entubado, foi desesperador. Mas, graças a Deus, com o passar dos dias, João ficava mais forte e lutava de frente com as adversidades. Nunca tinha visto um ser com tanta sede de viver, os olhos falavam por ele. A cada dia que chegava na UTI, era uma novidade, e a sua evolução foi galopante. Tanto que, no oitavo dia de vida, João deixou os aparelhos de oxigênio e passou a ser independente na respiração. Na segunda semana de vida, João já estava nos nossos braços fazendo canguru para ganhar peso.

À primeira vista, João era parecido com o avô paterno, inclusive com o “furinho” no queixo. Com o passar dos dias, ele se tornou uma mistura entre a mãe e o pai. Os seus olhos claros vinha da mãe e o furinho na orelha, que deixou o pai babão, mais babão, vinha dele e do bisavô. Era um lindo bebê de nariz e rostinho afilados, era um anjo enviado por Deus.

João, com seus atos, apresentava um bebê muito forte e genioso. É tanto que após vários dias mostrando que não gostava do decúbito ventral, o mesmo teve que ficar de “bunda para lua” com a fralda fora do lugar devido, e por isso, ganhou a primeira observação na incubadora: “Não aceita decúbito ventral”. A sua bravura se apresentava em momentos que nós, pais, já não aguentávamos mais a rotina de coleta de sangue, teste de glicose, acesso. Na UTI, ganhou alguns adjetivos: despudorado, genioso, escandaloso, “brabo” e valentão, pois não ficava quieto quando iam realizar algum procedimento. Em sua última dissecção, foi necessário duas pessoas para segurá-lo e o médico realizar o procedimento já que o sedativo não o derrubou. Ele tinha sede de vida, quando chegávamos perto dele nossas energias eram renovadas. Era emocionante o quanto ele já nos conhecia, pois assim que chegávamos perto da incubadora dele e dizíamos: "João, painho e mainha estão aqui" e ele soltava um sorrisinho maroto. Seu sorriso transformava o nosso cansaço em determinação e cada vez mais tínhamos a confiança que ele saíria da UTI para sua casa, para o seu quarto.

No segundo mês de vida, João ganhou um mensário, uma festinha na UTI. Foi um momento de grande felicidade, pois estávamos festejando mais um mês de sua vida, além de receber mais apoio e carinho de todos naquele momento. Após o seu mensário, no domingo, dia 24 de julho, recebemos a notícia que João precisava ir a Natal realizar avaliação, pois havia suspeita de problemas intestinais. Essa notícia foi muito preocupante, mas estávamos confiantes que tudo ia dar certo. Na terça-feira, dia 26, João foi transferido de helicóptero para Natal. Tivemos que viajar separados. Nós fomos de carro junto com a avó. Chegando na recepção do hospital, já fomos informados do choro dele (era marca registrada).

Em Natal, tivemos nossa pior experiência de pais de UTI, ao chegarmos, foi um choque vê-lo em uma UTI pediátrica, pois o costume era na UTI neonatal e os profissionais que sempre o acompanhou, tudo era novo.
Na quarta-feira, vimos o seu último sorrisinho, parecia uma despedida, pois na sexta-feira, João teve que ser entubado devido uma parada cardiorrespiratória. O problema era uma infecção. E, a partir desse momento, mais ainda, João travava uma batalha mais forte pela vida, lutava contra tudo, inclusive com o tubo (não aceitava!). Ele já estava muito debilitado, mas dizíamos: “Se ele ainda não desistiu, nós é que não vamos desistir! Vamos juntos até o fim”.

Até que no dia 04 de agosto, após três paradas cardiorrespiratórias, a infecção venceu a batalha e o nosso guerreiro foi para os braços de Deus, mas até o último instante lutou pela vida, e este ensinamento levaremos para sempre. Como disse o avô dele: “Deus achou que ele seria mais importante do lado dele”. Temos certeza disso, pois não era desse mundo uma criança tão forte, determinada e a cada dia nos dava lições de vida.

João Miguel Sabino Gurgel, nosso primogênito, viveu 74 dias, fruto do nosso amor, ficará para sempre em nossas vidas e para sempre será lembrado como sinônimo de bravura. A saudade é imensa, mas um dia chegaremos aí para dizer: “João, painho e mainha chegou!”. E ele nos responderá com o seu belo sorriso demonstrando toda sua alegria ao nos encontrar.

(relato da mamãe Patrícia Rafaela, enviado em 2016)



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