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Miguel, amor maior não há

16/02/2017 miguelcomlogo02

"E, então, certo dia decidimos ter um bebê! A minha gravidez foi totalmente planejada, fiz todos os exames, tomei ácido fólico 3 meses antes de parar a pílula e engravidei na terceira tentativa. Fiz todas as ultrassons, tomei todos os complexos vitamínicos, fiz o pré-natal como manda o figurino. No dia da ultra para descobrir o sexo do bebê, as avós corujas estavam lá e Doutor Ranieri perguntou qual o palpite de cada um e qual seriam os nomes escolhidos, então falamos que seria Emanuelly ou Miguel. Durante o exame, eu vi alguma coisa suspeita no meio das pernas, mas não falei nada. Então, depois de mexer e mexer mais um pouco, veio a notícia: Parabéns, mamãe da Emanuelly, aqui está o pinto do Miguel! Foi emocionante descobrir o sexo do bebê, e apenas a vovó Lu acertou no palpite, aliás, desde o início ela sempre afirmava que seria um menino. E alegria dobrada, pois dias antes meu irmão ligou dizendo que teriam um menino chamado Murilo. Então, seriam dois anjos para alegrar nossa família!

Estava tudo correndo bem e nós já estávamos fazendo planos, imaginando como seria o rosto do nosso Miguel, comprando as roupas, planejando o chá de fralda. Só não sabíamos que havia uma UTI no meio do caminho. Miguel não mexeu o dia todo de domingo do dia 23/02 e, de noite, depois do banho, fiquei atenta aos seus movimentos, que não aconteceram. Papai até colocou música clássica para tocar no celular perto da barriga para ver se Miguel se movimentava. Depois de um tempo, falei que na manhã seguinte iria ao hospital Santa Catarina, como doutor Ranieri tinha orientado, caso não houvesse movimentação por mais de 24 horas. Não consegui pegar no sono, então tomei banho e fiquei conversando com o Miguel, sequei o cabelo para dar barulho, mas nada de movimento. Peguei no sono e, na manhã seguinte, fui trabalhar e até na hora do almoço não senti nenhuma movimentação do Miguel. Então, minha diretora me levou ao hospital. Lá entrei e fiquei...

Ficamos na sala de pré-parto esperando o médico vir me examinar e as notícias não foram boas. O médico disse que o bebê tinha batimentos cardíacos, mas que isso não significava que ele estava bem, segundo suas palavras: “por enquanto ainda estava vivo!” Fui encaminhada para um ultrassom mais detalhado, no qual o silêncio da médica me deixou apreensiva. Ela saiu e foi chamar outro médico, que depois chamou outro, e os três analisaram os batimentos e fizeram um exame mais complexo. Me falaram que iam me encaminhar para o médico que fui examinada anteriormente e que lá ele iria conversar. Mas eles falaram que o bebê realmente estava sem quase nenhum movimento. Perguntei se ele estava sofrendo e o médico fez uma cara de tristeza e disse: “Infelizmente, sim, mãe, ele está em sofrimento fetal”. Minha calma aparente desmoronou ali, botei a chorar ao pensar no meu anjo sofrendo. Minha amiga foi me acalmando e voltamos para o quarto de espera onde liguei para o Flávio e para minha mãe. Que dor eu senti, dor de medo, dor pelo Miguel sofrendo. Ali naquele momento eu senti a primeira dor de amor, amor de mãe.

Então, quando Flávio chegou o médico já estava falando que o cordão umbilical havia enfartado e Miguel, sem alimento, havia parado de crescer. Começou a explicar os procedimentos seguintes, dizendo que iríamos esperar até o dia seguinte para realizarmos mais um ultrassom, em que iríamos decidir se esperaríamos mais um dia ou faríamos a cesárea no dia seguinte. Que a única providência seria tomar uma injeção para ajudar a amadurecer o pulmão do bebê e esperar. Mas ele foi realista ao extremo ao dizer que Miguel poderia entrar em óbito dentro da barriga durante as próximas horas, e que as chances de sobreviver ao parto e pós-parto seriam entre 10% e 50% de chance. E a noite foi tensa, cheia de medos, de choro e apreensão. Mil pensamentos passaram na minha cabeça. Mil medos diferentes, mais para cada medo, uma esperança!

Na manhã seguinte, fomos repetir o exame e novamente três médicos vieram observar o exame, e o resultado foi nada bom, teríamos que providenciar cesárea de emergência e o Miguel seria encaminhado direto para UTI. Ao chegar no quarto, fui logo orientada ao banho e ao deitar na maca. Falei que ia procurar ficar mais deitada e descansar, e a enfermeira disse: “Não, mãe, nós já estamos te levando pra sala de parto agora!”. Me despedi rapidamente da minha mãe e do Flávio e fui. Na sala de espera para cesárea, comecei a conversar com o Miguel, dizendo o quanto o amava, o quanto o papai estava esperando para jogar bola, o quanto todos o amavam e estavam torcendo por ele. Foi nessa nossa conversa que disse: “Filho, agora é com você, mamãe não pode fazer nada agora, a decisão de viver com a gente é sua. Nós pedimos por você em nossas orações e você nos escolheu, então, por favor, não nos abandone! Filho, não importa se você nascer e tiver alguma limitação, nós vamos te ajudar, nós estamos aqui por você, esperando essa oportunidade de crescermos e amadurecermos espiritualmente juntos! Viva por mim, viva por seu pai! Nós te amamos!”. E de toda nossa conversa, fiz uma oração dolorida, mas naquele momento coloquei meu amor a prova e disse pra ele: “Tudo bem, filho, se você não tiver preparado, mamãe vai te amar do mesmo jeito se você decidir desistir, mas, por favor, não sofra mais, você é nossa benção, Deus te enviou e me falaram que você nos traria muitas bênçãos, então, é com você! Mamãe e papai vão estar te esperando.” Ficava repetindo isso diversas vezes, o quanto ele era amado e esperado por tanta gente, que ele seria nossa alegria, mas que dali pra frente a decisão seria dele.

Durante o parto, coloquei todas minhas orações por ele, conversei o tempo todo com o anestesista, perguntando como estava a pressão, como estava indo a cesárea. Os médicos estavam em silêncio e ao nascer não ouvi seu choro. Foi então que tive coragem de perguntar: “Já nasceu?” E o anestesista me olhou e disse: “Nasceu vivo e já levaram ele pra UTI.”. Então, agradeci a Deus e naquele momento eu tive a certeza que ele ficaria bem, ele deu o primeiro passo, decidiu viver! Veio o doutor Marcelo da UTI, disse que Miguel estava vivo e que deram uma injeção para amadurecer o pulmão e que já estava entubado.

Depois de algumas horas de tensão, sem notícias na sala de recuperação, fui liberada para o quarto, onde Flávio me deu notícias mais detalhadas da permanência do Miguel na UTI. Nosso pequeno grande guerreiro veio ao mundo com 28 semanas de gestação, no dia 25/02/2014, pesando 876g e 33cm. Estava estável e lutando pela sobrevivência. Fui vê-lo pela primeira vez sozinha, a emoção não pode ser totalmente descrita, pois foram muitos meus pensamentos e sentimentos. Confesso que uma delas foi: “Será que vou dar conta?”. E coloquei na minha cabeça que daria conta sim, que seria forte por ele e pelo Flávio, que iríamos sair dali com ele bem e saudável! Em menos de 24 horas, nosso mundo mudou completamente. Mergulhamos de uma hora para outra nesse mini mundo, cheio de sondas, acessos venosos, monitores que apitam por todos os lados. Gosto de pensar que fui uma mãe tranquila nesses dias turbulentos, procurei não incomodar as enfermeiras, todo dia que colocava os pés dentro da UTI era com um sorriso no rosto, lápis nos olhos e batom na boca! Miguel iria me ver todos os dias sorridente e com aparência boa, iria passar pra ele energia positiva, dizendo a todo momento como nós o amávamos e estávamos orgulhosos dele. E eu tinha que estar bem fisicamente e psicologicamente por ele. Apesar da minha certeza que ele ficaria bem, tinha momentos que não aguentava e começava a chorar ao ver meu bebê tão pequeno e tão indefeso. Então, saia discretamente e ia chorar na sala ao lado de espera. Quantas noites chorando deitada na cama, pensando que ele estava lá, será que estava chorando? Com cólicas? Flávio então me confortava, dizendo que tudo ia passar e ficar bem, que logo ele estaria em casa. Pois apesar da minha fé, meu coração de mãe doía, chorava ao ter que ir embora e deixar ele ali. Mas sabia que precisava descansar e ficar firme por ele, que a luta seria longa, que seria dias e mais dias de UTI. Quando as pessoas falavam que devia ser cansativo, eu concordava, mas sempre respondia que não importava quantos dias ele ficasse ali, contando que ele saísse bem e que teria a vida toda pela frente, tudo valeria à pena!

Depois de uns dias respirando sozinho, os médicos decidiram entubá-lo novamente, pois estava emagrecendo e perdendo muito peso. Ele era uma mini pessoinha com um respirador enorme no rosto e óculos escuros para proteger os olhos do banho de luz contra icterícia. O começo é bem assustador, eu tinha medo de perguntar as coisas, medo das respostas que viriam. Quais eram os riscos? Ele teria sequelas? Quanto tempo ficaria internado? Foram muitas as perguntas que nos fazíamos aos médicos, e eles sempre nos respondiam dizendo para vivermos um dia de cada vez, e ao final do dia agradecer por ele ter sobrevivido mais um dia. Os médicos e enfermeiras sempre atenciosos e verdadeiros, falando dos procedimentos, das chances e dando esperança.

Me sentia culpada, pois como tinha feito cirurgia de estômago achava que as pessoas me culpavam por isso. Sentia as perguntas delas no olhar: “Será que não foi isso que enfraqueceu o bebê? Será que você se alimentava bem?”. Tentava entender o que tinha feito de errado. Só depois de um tempo e depois de perguntar para alguns médicos da UTI e para o meu médico ginecologista o que podia ter acontecido e eles todos dizerem que existiam várias causas, mas que não poderiam ser detectadas com exatidão, e que isso foi uma fatalidade. Então, parei de me culpar e não apenas entendi, e sim, aceitei o fato, que não tinha feito nada de errado e que se ele estava ali, vivo, eu tinha era que agradecer e dar todo o amor do mundo para ele ter alta logo. Amor através da janelinha redonda da incubadora, porque pegar no colo mesmo eu só peguei 12 dias depois, ainda entubado. Foi emocionante, aconchegar no colo um ser tão pequeno, mas tão guerreiro! Sentir coração com coração... Amor maior não há!

Com o tempo a gente vai se acostumando com a rotina de hospital. A UTI funciona 24 horas para os pais e eu chegava lá por volta de 09:30h, ia embora lá pelas 20:30h. Flávio vinha depois do trabalho e ficava o tempo todo conversando e dizendo o quanto o papai o amava e estava esperando ele ficar bom e crescer para poder ir passear, ir nos jogos do Metropolitano, andar de carro, ir pra praia, ir no sítio. Miguel sabia a hora que o papai chegava, pois esperava de olhos abertos e bem atento a sua chegada. Passava o dia todo com ele, fazendo pausas para comer, e conversar um pouco com outros pais. A sala de espera da UTI é realmente um consultório psicológico, onde um apóia e torce pelo outro. E quando aconteceu de 3 crianças falecerem, Miguel Otávio, Enzo e Luísa, foi grande minha tristeza, pois a melhora e piora das outras crianças são motivo de alegria e de tristeza, criamos vínculos pela dor e pelo amor.

Aos poucos, a gente começa a arregaçar as mangas e a cuidar da cria, as enfermeiras te encorajam a fazer isso. Comecei a dar leite pela sonda, a trocar a microfralda, tirar temperatura, dar uns petelecos para reavivar quando iniciava alguma apneia. Muita gente se assusta quando conto isso, mas todo bebê prematuro extremo simplesmente se esquece de respirar! Aí o batimento cardíaco começa a cair, os monitores apitam e a gente tem que lembrá-los de respirar. Ai quando isso acontecia tinha que dar uns petelecos mesmo, pro bem dele, pela vida dele. E, toda vez que pegava ele no colo ,eu tentava ensinar a respirar, dizendo puxa e solta, e acho que ele foi entendendo...

Outra parte angustiante era o ganho de peso. Como todos os bebês, ele também perdeu peso na primeira semana e chegou a 830g. Iniciou a “dieta” com 2ml de leite, passando pra 5, depois 7, 10, aí pegou infecção, não ganhou leite por uns dias pois vomitava. Coração apertava! Curada a infecção, voltou a dieta com 5ml e aumentando aos poucos a quantidade. Foi ganhando peso e grande foi a alegria quando chegou a 1kg! Passado uns dias, pegou outra infecção e, novamente, foi cortado a dieta e apenas no soro. Coração apertado de novo, medo, insegurança, mas sempre com a certeza que Deus estava no comando e nossos anjos de luz acompanhando e zelando pelo Miguel.

Miguel já estava sendo estimulado a sugar com um bico que as enfermeiras fizeram com dedo de luva e algodão, então, quando o dia de ir para o peito, pela primeira vez chegou, fiquei orgulhosa, pois conseguiu sugar bem, apesar de cansar e desistir logo, vimos que ele ia aprender rápido. Esse é nosso garoto, tão esperto! E peito de mãe faz milagre, pois no dia seguinte começou a respirar sozinho!

Nem tudo correu conforme o esperado e, depois de uns dias pegou, outra infecção e voltou a precisar usar CPAP e cateter nasal para não cansar. Mas, aos poucos, foi diminuindo o uso do oxigênio e de um dia para outro começou a respirar sozinho de novo! Foi preciso esperar uns dias para ver se estabilizava e se mamava.

E, então, o dia tão esperado chegou: dia 15/04/2014, 49 dias de UTI, enfim, ganhamos alta para o quarto! Nessa hora bateu uma insegurança do tamanho do universo! E se acontecesse alguma coisa? Agora éramos só nós: eu, ele e Deus! Sem monitor, sem eletrodos, apenas a campainha para chamar socorro das enfermeiras. Chequei se ele estava respirando inúmeras vezes. Observava para ver se não teria mais nenhuma apneia. Noites no quarto mal dormidas, medo de pegar no sono e não escutar ele chorar... No quarto a luta continuou, pois começou a ganhar e perder peso, algo esperado depois de sair da UTI, mas no fim tudo correu bem. Depois de 15 dias no quarto ganhamos alta para casa!

Recebemos orientações sérias de evitar visitas no início, pessoas gripadas nem pensar e jamais fumar perto dele ou dentro de casa. Se alguém fumasse, deveria ter o cuidado de tomar banho e trocar de roupa antes de pegar ele no colo, pois a nicotina fica impregnada na roupa e essa fumaça é grande causadora de morte súbita em bebês. Então, papai diminuiu a quantidade de cigarros, por ele, pela mamãe e, principalmente, pelo Miguel. Esses cuidados se fizeram necessário, pois, segundo os médicos, os prematuros extremos levam tempo para se adaptar ao meio, e caso pegarem resfriado vão encontrar dificuldade para respirar e essa dificuldade vão levá-los de volta ao hospital e, em muitos casos, de volta a UTI. Então, seguimos as recomendações à risca e nossos parentes e amigos tiveram que esperar mais um pouco para poder conhecê-lo pessoalmente. Sabíamos que todos iam entender, pois foram eles que nos ajudaram em orações e pensamentos positivos a recuperação do nosso filho!

O tempo que passei na UTI foi uma escola, acredito que saí de lá PhD em cuidados com bebê, sem medo de agulhas e sondas. Dou valor a coisas que antes não dava, comemoro cada progresso, pois sei que, para prematuros, o desenvolvimento é mais lento que o normal. Foram 2 meses de luta, medos, incertezas que se transformaram numa história de superação para ele e para nós. Conheci pessoas maravilhosas, fiz amizades que serão para sempre e sei que um dia vou olhar pra trás e ter a certeza de que ser mãe de UTI me fez uma pessoa melhor. Sei que o trabalho das enfermeiras é de cuidar e resguardar a vida das crianças, mas muitas são mais que enfermeiras, se tornaram especiais pelo carinho e paciência que nos dedicaram nesses dias. Então, deixamos um mega agradecimento as enfermeiras da UTI-NEOPED que tão bem cuidaram do Miguel, sendo mãe dele quando eu não estava presente. Nossa eterna gratidão aos médicos que salvaram nosso guerreiro: Dr. Marcelo, Dr. Mario, Dr. Eduardo, Drª Loriete e Drª Janine! Agradecemos também as meninas da recepção, que sempre estavam perguntando pelo nosso pequeno e torcendo pela sua recuperação. Agradecer as meninas da copa que sempre entravam no quarto com um sorriso e tirando uns minutos para conversar e me distrair. Agradecimento especial também as enfermeiras da B1, que me ajudaram com muita paciência a transição da UTI para o quarto a espera da alta. Agradecemos a todos os amigos e familiares que rezaram e mandaram energia positiva pela recuperação do Miguel! Deu certo! Vencemos essa batalha! Agradecer a cada momento a Deus, que em sua infinita bondade nos deu esse milagre chamado Miguel! E, principalmente, agradecer ao Miguel, que desde que nasceu vem nos ensinando o real significado das palavras FÉ, ESPERANÇA E AMOR! Obrigada, filho, por não desistir e lutar pela sua vida! Nos te amamos até a lua e volta infinitamente, nosso pequeno grande guerreiro!"

(relato da mamãe Francieli, enviado em 2015)



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