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Colo de mãe, chupeta e água com açúcar reduzem sofrimento de bebês prematuros

15/06/2012


     Ok, notícia antiga. Mas tudo que fala de prematuros é valido saber, certo?

     Ainda mais essa matéria da Época que fala da dor dos bebês ao passar por certos procedimentos. Fala da importância da analgesia, do cuidado no manuseio (sensibilidade da equipe da UTI), do uso de água com glicose/sacarose, do método canguru e do uso da "escala da dor". Excelente reportagem!



     Por Marcela Buscato, Julho/08






Mesma fonte

     Um dos grandes desafios dos neonatologistas, os médicos que cuidam dos recém-nascidos, é diminuir os sofrimentos dos bebês que estão em uma unidade de terapia intensiva (UTI). As crianças passam em média por 15 procedimentos por dia, entre trocas de curativo, coleta de sangue e punções para pegar uma veia. “Na primeira semana, estima-se que os bebês recebam 240 toques por dia, uma média de 10 por hora”, diz Manoel de Carvalho, da Clínica Perinatal Laranjeira, no Rio de Janeiro. “Os bebês mal conseguem dormir."

     Os médicos tentam diminuir ao máximo a dor causada pelas intervenções, mas também não podem abusar dos analgésicos e anestésicos. Como o cérebro do bebê está em desenvolvimento, há o risco de que a própria medicação cause efeitos adversos. O caso dos prematuros é ainda mais difícil, já que poucos remédios foram testados em crianças tão pequenas. “As empresas farmacêuticas não prestam muita atenção no desenvolvimento de analgésicos e fórmulas específicos para recém-nascidos”, diz o pediatra francês Ricardo Carbajal, do Centro Nacional de Recursos de Luta contra a Dor do Hospital Infantil Armand Trousseau, em Paris. “Esse tipo de medicamento não é um negócio tão lucrativo.”

     Mas o próprio Carbajal é um dos grandes defensores de métodos mais naturais para evitar a dor. Um estudo liderado pelo pediatra apontou o uso da chupeta, combinado com a administração de glicose ou sacarose (dois tipos de carboidratos), como um dos métodos mais eficazes para a aplacar a dor durante procedimentos simples. Na pesquisa, o desconforto de 150 bebês foi avaliado com base em uma escala que considerava expressão facial, choro e movimento dos braços e das pernas. O zero significava ausência de dor e 10, dor mais forte. Os bebês que tiveram o sangue colhido sem receber nenhum tratamento analgésico tiveram nota 7. Os que tomaram a solução doce tiveram nota 5 e os que usaram chupeta nota 2. Aqueles que usaram chupeta, além de receber a solução de glicose ou sacarose, tiveram apenas 1 ponto na escala. A solução doce estimularia a produção de analgésicos naturais no corpo, que ajudariam a aliviar a dor. A sucção da chupeta, prazerosa para o bebê, ajudaria a desviar a atenção da dor.

     O método canguru, aquele em que a criança fica no colo da mãe, também já se mostrou uma boa estratégia. Um estudo publicado no mês passado por Celeste Johnston, da Universidade McGill, no Canadá, apontou que os bebês que tinham o sangue colhido enquanto estavam no colo de suas mães sentiam menos dor e se recuperavam mais rápido do que aqueles cujo sangue havia sido retirado enquanto estavam na incubadora. Em uma escala de dor de até 21 pontos, os bebês do método canguru tiveram uma pontuação de 8,87 e se recuperaram do estresse em menos de 2 minutos - seus batimentos cardíacos e nível de oxigênio voltaram ao mesmo patamar de antes do procedimento. Já os bebês da incubadora pontuaram 10,67 e demoraram mais de 3 minutos para se recuperar, o que pode ser preocupante em bebês tão frágeis e que passam por dezenas de procedimentos por dia.

     Médicos do Hospital Regional da Asa Sul, em Brasília, do Hospital das Clínicas e Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e da Clínica Perinatal, no Rio de Janeiro, afirmam que esse tipo de medida está sendo cada vez mais adotado nas unidades de terapia intensiva. “O importante é planejar quais exames precisam ser feitos e fazer vários de uma só vez para não incomodar tanto os bebês”, afirma a pediatra Alice Deutsch, coordenadora médica da unidade neonatal do Hospital Israelita Albert Einstein.

     Porém, um levantamento feito pela pediatra Aurimery Gomes Chermont, da Universidade Federal do Pará, mostra que a preocupação em aliviar a dor dos bebês ainda não está bem difundida. Aurimery entrevistou 104 médicos de sete UTIs e 14 hospitais de Belém. Todos disseram acreditar que os recém-nascidos podem sentir dor, embora apenas 10% afirmem dar analgésicos antes de espetar algum vaso. Entre 50% e 75% disseram não aplicar nenhuma medicação para aliviar a dor dos bebês mesmo após cirurgias abdominais.

     “Médicos e enfermeiras precisam de cursos específicos para aprender a lidar com a dor do bebê. Falta informação”, afirma a neonatologista Martha Vieira, do Hospital Regional da Asa Sul, em Brasília. “As enfermeiras são muito importantes porque são elas que realizam a maior parte dos procedimentos e acompanham os recém-nascidos o tempo todo.” Para a pediatra Sílvia Maria de Macedo Barbosa, do Instituto da Criança, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, os cursos de medicina não preparam os médicos para lidar com a dor. “Toda faculdade deveria ter uma disciplina obrigatória sobre esse assunto”, diz Sílvia. “Muitos médicos nem conhecem as escalas para avaliar a intensidade da dor.”

     Essas escalas são bons termômetros de quanto um bebê está sofrendo. Se para um adulto, dono de um amplo vocabulário, já é difícil contar para o médico onde e o quanto dói, imagine para um recém-nascido. No caso dos bebês que nascem com mais de 37 semanas, os médicos costumam se valer das expressões faciais, da intensidade do choro e dos movimentos de braços e pernas para avaliar a dor. É dessa maneira que eles podem decidir como tratá-la: se é tão forte que seja necessário aplicar um analgésico ou se o desconforto é pequeno e passageiro. Nos prematuros, muitas vezes tão miudinhos que não podem nem chorar, os neonatologistas também usam outros indicadores. Medem a freqüência cardíaca, a pressão arterial e o nível de oxigenação. Mas uma pesquisa publicada no mês passado mostrou que mesmo usando escalas de d
or os médicos podem estar subestimando o desconforto dos bebês. Rebeccah Slater, da University College of London, monitorou o cérebro de bebês enquanto eles eram submetidos a uma picada de agulha. Treze não choraram em 33 ocasiões, mas o monitoramento do cérebro de dez bebês apresentava um padrão de atividade correspondente ao de dor.

     Os pais de bebês que tiveram de ficar na UTI costumam se preocupar se esse período traumático terá impacto no futuro de seus filhos. Perguntam-se se a dor ao qual eles foram expostos acarretará em problemas de aprendizagem e de comportamento, como indicam algumas pesquisas. A ciência ainda não consegue responder quanta dor é preciso sentir para que ela possa influenciar o organismo e ter efeitos a longo prazo. Mas para a pediatra Ruth Guinsburg, professora da Universidade Federal de São Paulo, os pais devem pensar que a mesma plasticidade cerebral, que moldada pela dor talvez possa trazer problemas no futuro, também pode favorecer na recuperação dos bebês. “Essas crianças sempre vão receber um carinho especial. E carinho é mais forte do que as estatísticas”, afirma Ruth. “Os números valem para grupos grandes, não para pessoas.”



Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI8394-15254,00-MEDIDAS+SIMPLES+AJUDAM+A+DIMINUIR+A+DOR+DO+BEBE.html






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