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Alta hospitalar e reinternação de prematuro: reflexão sobre os serviços de saúde

25/02/2014


Artigo aprovado para publicação em: 12/09/2011

O artigo resumido a seguir teve o objetivo de investigar as reações emocionais maternas perante a alta hospitalar e reinternação de recém-nascido prematuro em relação ao acesso aos serviços de assistência no cenário do Sistema Único de Saúde (SUS).


 

Introdução

O nascimento prematuro traz desafios para a saúde pública na medida em que, ao lado dos índices de sobrevivência cada vez maiores desta população, a questão da qualidade de vida após a alta hospitalar ainda é uma realidade pouco conhecida. A qualidade de vida se refere tanto ao estabelecimento do vínculo e apego mãe-filho e família, em especial da mãe em relação ao interesse no aprendizado dos cuidados com o bebê, como com a relação entre a assistência esperada e a assistência recebida às sequelas ligadas ao desenvolvimento da criança, adolescente, adulto nascido prematuro.

As reações emocionais maternas após o parto, com a presença concreta do bebê, apresentam uma fenomenologia clínica-psiquiátrica característica na qual a depressão é o transtorno emocional mais comum, podendo persistir muito além da fase imediatamente seguinte ao nascimento, seja na unidade de terapia intensiva (UTI), seja na enfermaria pediátrica.

Os estados afetivos maternos, que se estabelecem nos primeiros dias após o parto, criam um esquema relacional internalizado que se reproduz sem modificação no decurso da relação mãe-bebê. Desta forma, a separação mãe-bebê prematuro que ocorre imediatamente após o nascimento pela internação em UTI Neonatal, apontaria para determinada forma de transtorno do vínculo.

Os problemas médicos que se originam nas primeiras semanas de vida podem requerer cuidados por meses ou anos, bem como outras condições que se manifestam mais tarde, na infância, adolescência ou idade adulta que necessitam de uma atitude de constante monitoramento. Desta forma, a capacidade dos serviços extra-hospitares de receber tais pacientes encontra-se diretamente ligada ao enfoque de situações de risco características da absorção do egresso de UTI neonatal pela rede primária de assistência.

Método

A pesquisa foi realizada no hospital materno-infantil do Instituto Fernandes Figueira, na cidade do Rio de Janeiro, que é uma instituição hospitalar de referência na rede pública da assistência à gravidez de risco e ao parto prematuro. O hospital conta com uma UTI neonatal ligada diretamente ao Departamento de Neonatologia. O período de tempo relativo à pesquisa de campo, interpretação, análise e confecção da pesquisa foi o de dois anos (2004-2005).

Foi utilizado o método qualitativo de pesquisa em saúde, através da técnica de histórias de vida. Para a construção das histórias de vida, trabalhou-se com o material colhido em prontuários médicos das mães e dos bebês, entrevistas abertas e não diretivas e com a observação participante. As situações de observação participante se deram no interior do hospital (UTI, enfermaria, ambulatório) e em ambiente doméstico após a alta hospitalar.

Os critérios de seleção do grupo de mães foram: acompanhamento no interior da UTI por um período superior a 30 dias; origem social nas classes trabalhadoras com dependência exclusiva de assistência à saúde oferecida pela rede pública; localização da residência fora da região metropolitana do Rio de Janeiro. A observação e escuta permitiram compreender como as mães vivenciaram, no hospital, a experiência da internação a partir de seu estado de humor e de como apreenderam o papel de coadjuvante na assistência durante o período da internação.  Após a alta hospitalar, durante os seis primeiros meses de ingresso da dupla mãe-bebê em ambiente doméstico, possibilitou acompanhar os encontros e desencontros entre as propostas de humanização da assistência e as características da interação da dupla mãe-bebê em ambiente doméstico, bem como observar as características do humor materno no exercício da função parental sem intermediação da equipe técnica ligada à instituição hospitalar.

Resultados

Este artigo foi produzido a partir de uma das quatro histórias de vida, na qual pode-se observar a existência de uma distância compreensiva entre as prescrições do hospital e as situações concretas vividas pelas mães e seus bebês em ambiente doméstico.

A compreensão sobre o humor materno após parto prematuro em sua relação com as situações de alta, reinternação hospitalar e o acesso aos serviços de assistência no cenário do SUS pôde ser construída através do conhecimento sobre as formas de ingresso de uma mãe no sistema de saúde. Tais formas de acesso nos confirmam que a rede básica de serviços não se apresenta como a porta de entrada principal do usuário no sistema e que os hospitais públicos são, através de seus serviços de urgência/emergência e ambulatórios, a única alternativa de acesso aos serviços especializados.

O humor materno foi investigado a partir das reações emocionais diante da alta hospitalar e reinternação de bebê nascido prematuro em sua relação com o acesso aos serviços de assistência no cenário do SUS. Observou-se a existência de uma distância compreensiva entre as prescrições do hospital e as situações concretas vividas em ambiente doméstico. A fragmentação da assistência recebida após a alta hospitalar nos aponta para a incapacidade do sistema de saúde em absorver as necessidades especiais da população.

Desta forma constituído, o acesso contribuiu para situações de ausência do suporte emocional necessário à identificação materna com as necessidades de saúde da bebê na medida em que o vínculo, a responsabilização e o cuidado característicos de um atendimento integral inexistiram. Evidenciou-se que a relação entre a assistência de média e alta complexidade em saúde com a atenção primária necessita ser integrada de forma que em seu planejamento as situações de reinternação de população com necessidades especiais possam ser evitadas. Assim, se propõe uma reflexão que crie alternativas de comunicação entre as ações de média e alta complexidade e a atenção primária em relação à situação de alta hospitalar que, em suas ações assegurem a atenção integral à população de recém-nascidos prematuros.

Por Manola Vidal
Pós-Doutora em Saúde Mental, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mestre e Doutora em Saúde da Criança e da Mulher, FIOCRUZ, Instituto Fernandes Figueira, Psicanalista, Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro.

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